Há
5 anos, quem imaginaria que nossa querida Netflix
estaria distribuindo produções originais super criativas e com elencos tão
encorpados? The Discovery é a nova
atração exclusiva do catálogo que, mesmo possuindo um roteiro surpreendente e
atores competentes, deixa seu público um tanto insatisfeito e buscando
compreender o que não precisaria caso a história fosse mais clara. Todavia, o
filme é um bom divertimento pronto para ser explorado pelos fãs de ficção que
adoram refletir sobre vida após a morte, e que com certeza vai agradar até os
expectadores menos exigentes com um recheio amoroso de se admirar.
Inicialmente,
logo na primeira metade do filme, o público consegue notar uma grande
semelhança dos aspectos técnicos e temáticos com a série The OA (também Original Netflix).
O pós-vida, a busca amorosa e os tons frios acompanham os minutos de ambas
produções intimamente, mas não exatamente da mesma forma. O filme possui uma
abordagem de desenvolvimento bastante lenta, com uma leve utilização da trilha
sonora apenas em momentos específicos (diferentemente da série).
Após
comprovar cientificamente a existência de vida depois da morte, um cientista
chamado Thomas Harbor (Robert Redford)
vê sua descoberta liberar um verdadeiro caos em meio a população, causando uma
onda de suicídios. Em meio a este turbilhão, Will (Jason Segel) se apaixona por Isla (Rooney Mara), uma mulher que tem um passado marcado por eventos
trágicos. A crescente paixão de Will por Isla rende diálogos formidáveis (e
importantes) em cenas despretensiosas, engrandecendo o enredo do filme, que em
nenhum momento se perde de seu objetivo central: o relacionamento do casal.
Em
alguns momentos é normal questionarmos a narrativa em itens como a
verossimilhança do gigantesco número de suicidas que decidem perder suas vidas
na terra apenas com o propósito de “chegar
lá” (como os personagens dizem). Outro fator mal aprofundado é a própria
prova da existência de vida após a morte, mas essas questões se mostram não tão
cruciais para a história após compreendermos realmente qual a mensagem do filme
no fim do segundo ato. Os personagens (principais e secundários) possuem
singularidades observáveis, como as expressões faciais contínuas e o humor
perspicaz que aparece entre uma cena ou outra para dar engrossar o enredo.
Um
ótimo exemplo é a forte presença do irmão de Will, Toby (interpretado pelo
fantástico Jesse Plemons), deixando
sempre uma pequena marca cômica. Isla por sua vez traz a beleza e a aparente
ingenuidade que se equilibra com sua incrível habilidade de “decifrar” as
personalidades das pessoas (destaque para Rooney
Mara que a representa talentosamente). Will se mostra ser o protagonista do
filme, tomando decisões e se mostrando sensível apesar de seu exacerbado
ceticismo, um papel que caiu bem para o ator Jason Segel, que não decepciona. Até o experiente Robert Redford se sai bem em seu papel
coadjuvante, doando carisma e conhecimento em diversas se suas falas.
A
direção de Charlie McDowell não
chega a ser ruim, mas não impressiona. Sua escolha de planos não agrada em
certas cenas, apostando em ângulos confusos e desnecessários. A arte não
explora tão bem a ambientação dos cenários, se salvando apenas na maquiagem, no
figurino e na paleta de cores elaborada junto ao experiente diretor de fotografia
Sturla Brandth Grøvlen. Mas afirmo
que a valiosa peripécia do filme é o roteiro, que embora seja o mais
questionado aspecto da obra, é também o mais precioso deles. Justin Lader constrói uma história
coesa e intrigante, que se faz genial com um “plot twist” (virada inesperada)
imponente e arriscado ao fim do filme, que explica a maioria dos acontecimentos
imprevisível e imperceptivelmente aos olhos do expectador em seu primeiro
contato.
Mas
querendo se reinventar e partir de um conceito antes não transmitido, o roteiro
também acaba confundindo o expectador, deixando para trás algumas pontas soltas
e inacabadas. Embora essas questões sejam pontos negativos claros, não são o
suficiente para tornar o filme desinteressante ou mesmo ruim, pois é claro o envolvimento
do público desde o começo da história até seu final, ainda que seu desenrolar
seja lento e gradativo, o que caracteriza a obra como estimulante e rara no que
vemos frequentemente em ficções científicas. The Discovery vale a pena ser conferido só pelas ótimas atuações e
seus diálogos muito bem difundidos, principalmente por sua história que
balanceia o romance e o drama de uma maneira extraordinária.
A
temática da vida após a morte se mostra cada vez mais presente e abrangente,
sendo trabalhada de inúmeros jeitos, através de conceitos diferentes (do
profundo ao razo), incentivando roteiristas de todo o mundo a pesquisarem mais
sobre essa área tão misteriosa (talvez a mais desconhecida) de nossas vidas, a
fim de criar questionamentos e indagações sem respostas, o que não é nem de
longe ruim, pois a argumentação e a opinião deve ser valorizada, independente
do embasamento científico, algo que o filme faz com louvor.
FICHA
TÉCNICA
Direção: Charlie McDowell
Roteiro: Justin Lader,
Charlie McDowell
Elenco: Jason Segel,
Rooney Mara, Jesse Plemons, Robert Redford, Riley Keough, Ron Canada, Mary
Steenburgen
Produção: Alex Orlovsky, James D. Stern
Fotografia: Sturla Brandth Grøvlen
Gênero: Ficção Científica / Drama
Duração: 102 min.
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