segunda-feira, 20 de março de 2017

Crítica | Lion – Uma Jornada para Casa é uma tocante jornada que inspira coragem e determinação

Mais de 80 mil crianças se perdem por ano na Índia. Algumas tiveram um final feliz, mas muitas sofreram com as mazelas do país, passando pelas piores situações possíveis. Saroo Brierley foi uma dessas crianças com final feliz e, sua história real foi adaptada para as telonas em Lion – Uma Jornada para Casa, produção que inspira coragem e determinação.

Escrito por Luke Davies adaptado do livro de memórias A Long Way Home, a trama acompanha a jornada do indiano Saroo, uma criança de 05 anos que se perdeu do irmão numa estação de trem de Calcutá e enfrentou grandes desafios para sobreviver sozinho, até ser adotado por uma família australiana. Incapaz de superar o que aconteceu, aos 25 anos ele decide buscar uma forma de reencontrar sua família biológica usando a ferramenta Google Earth.

A performance tremendamente maravilhosa de Dev Patel é a alma resiliente do filme tamanha a paixão e emoção entregados em cada cena. É sentido em sua postura o fardo que carrega por desconhecer suas raízes, algo que o consume por dentro, a ponto de mudar a forma de relacionar-se com a família adotiva. As comparações com Quem Quer Ser Um Milionário?, filme que o lançou em Hollywood, são iminentes. De fato, há muita semelhança na sequência inicial com a abordagem da pobreza das crianças na Índia com o filme de Danny Boyle. Mas enquanto esse filme era carregado de energia e com musicais, Lion – Uma Jornada para Casa é algo bem diferente – uma visão sóbria e profunda sobre a importância da família, das raízes, da identidade e do lar.
Mas, sem dúvidas, a atuação do jovem Sunny Pawar é apaixonante e surpreendente como Saroo na infância. O notável garoto consegue tirar algumas lágrimas tamanho o sofrimento que enfrenta, mas encarando tudo na esperança de reencontrar sua família. Nicole Kidman e David Wenham interpretam de forma soberba Sue e John Brierley, os pais adotivos de Saroo. Os únicos papeis problemáticos são de Rooney Mara como Lucy, o interesse amoroso de Saroo. O romance entre os dois é mal desenvolvido, sendo apenas justificado para que Saroo conheça o Google Earth. O outro ponto pouco explorado é Mantosh, o segundo indiano adotado pela família australiana. O personagem é apresentado apenas como um garoto problemático e durante a narrativa acaba sendo ignorado.

A fotografia de Greig Fraser enquadra as magníficas paisagens em toda a robustez e beleza da Índia e Austrália. Com tomadas aéreas que deixa uma vontade de conhecer esses países, alguns takes passam com eficiência o ponto de vista de Saroo diante da muvuca de pessoas na Índia e na descoberta do novo e belo paraíso australiano.

Mesmo estreante como diretor, Garth Davis demonstra sutileza em abordar um drama real sem exagerar no melodramático. São em cenas simples que sua direção consegue uma emoção espontânea. Desde a habilidade de nos colocar dentro da cabeça de um garoto de cinco anos quando conhece pela primeira vez a Austrália e encontra seus pais adotivos, até o primeiro contato de Saroo com coisas banais como a televisão ou uma geladeira. Tudo é apresentado de forma magistral.
Por fim, Lion – Uma Jornada para Casa é um drama tocante sobre a busca de nossas origens e da importância de enfrentar nossos demônios internos para seguir em frente e nos encontrar como pessoas. A mensagem social durante os créditos finais busca conscientizar sobre o que acontece na Índia e em outros países mais pobres. O caso de Saroo terminou da melhor forma possível. Mas difícil não ficar imaginando que outras crianças por aí não tiveram a mesma sorte que ele.