Em
2019, The Witcher se tornou um verdadeiro fenômeno da Netflix,
quando bateu recordes de audiência na plataforma. A empresa, claro, não perdeu
tempo e passou a considerar oportunidades para explorar esse universo além da
renovação da série principal. É nesse contexto que surge The Witcher: A
Origem, um prelúdio que não esconde servir inteiramente para algo maior –
mesmo que isso ofusque suas qualidades próprias.
A
nova minissérie é ambientada cerca de 1.200 anos antes das aventuras de Geralt
(Henry Cavill), e descreve o evento conhecido como a Conjunção das
Esferas, o choque entre diferentes realidades que levou a magia do Caos e as
criaturas ao Continente.
A
ambientação é relevante para os fãs da franquia em qualquer mídia, visto que é
um evento que não foi extensamente explorado nos livros de Andrzej Sapkowski,
nem nos games da CD Projekt RED. De quebra, o seriado ainda narra tudo
através de ótimos personagens.
A
trama segue Éile (Sophia Brown) e Fjall (Laurence O’Fuarain),
dois elfos guerreiros de clãs diferentes, que precisam se aliar quando
descobrem uma conspiração envolvendo um poderoso império élfico, violentas
tomadas de poder e incursões para dimensões paralelas. A minissérie brilha
quando acompanha a dupla, que constantemente troca farpas entre si até
desenvolvem uma relação mais próxima, porém logo fica evidente que há trama
demais para tão pouco tempo.
Com
apenas quatro episódios, sendo que a maioria sequer atinge uma hora de duração,
o programa sofre pelo excesso. A dupla principal rapidamente se torna um trio
quando recebem Scian (Michelle Yeoh), outra elfa sem clã em busca de
vingança contra o império. Em pouco tempo, o trio se torna um grupo de sete
guerreiros, com a chegada da anã Meldof (Francesca Mills) e do casal
Brother Death (Huw Novelli), Zacaré (Lizzie Annis) e seu irmão
Syndril (Zach Wyatt).
A
reunião do grupo dá um gostinho de aventura de RPG, com uma equipe
improvável enfrentando ameaças muito maiores que eles. Mas essa não parece ser
a intenção da série, que busca contar grandes eventos do universo de The
Witcher. Nesse cabo de guerra, os personagens acabam mal desenvolvidos e
pouco explorados.
Além
dos dois protagonistas, apenas Meldof consegue chamar atenção, mas só pela
personalidade carismática que a atriz Francesca Mills traz ao papel da
anã, que anda por aí com uma enorme marreta feita a partir das cinzas de sua
amada. Scian, apesar de vivida pela excelente Michelle Yeoh, acaba
relegada a uma aura de “sábia guerreira” que pouco usa os talentos da
intérprete. Já o trio que os acompanha é esquecível ao ponto de sua presença em
tela até distrair, pois parecem existir apenas para preencher tabela.
Se
não bastasse ter que desenvolver sete personagens principais em poucos
episódios, The Witcher: A Origem ainda insiste em um explorar o lado do
império élfico em vários núcleos. A decisão não é exatamente ruim -,
especialmente porque a trama da princesa golpista Merwyn (Mirren Mack) é
bastante intrigante -, mas altamente questionável. O programa é estufado de
rostos, nomes e eventos históricos, porém se importa tão pouco em aprofundar
qualquer coisa que é possível terminar de ver a minissérie sem saber muito mais
do que antes de começar.
E
não que o período retratado não seja altamente relevante para o mundo da
franquia. Afinal, o seriado narra não só o que foi a Conjunção das Esferas,
como também o fim da era de ouro dos elfos, o surgimento de Nilfgaard e a
criação do primeiro Witcher.
Isso
sem falar da introdução de rostos importantes, como a vidente Ithiline, cujas
profecias são extensamente citadas nos livros, e também Eredin, cavaleiro
destinado a se tornar o líder da Caçada Selvagem – grupo de elfos sobrenaturais
que vagam entre dimensões em busca de Sangue Antigo (como o de Ciri).
O
esforço de expandir o universo é louvável, mas a minissérie se atrapalha e
acaba por complicar algo que poderia ser simples. Sobrecarregada de lore e
personagens, a trama fica indecisa entre dar uma aula de história fictícia ou
acompanhar a vida de guerreiros presos no meio de grandes conflitos políticos e
mágicos.
Há
muito potencial aqui, mas tudo é ofuscado. Falta tempo para realmente se
embrenhar nos dramas do período e de tanta gente assim. Com duração limitada,
falta foco para decidir o que é mais importante de retratar nos poucos
episódios que têm. Tudo é corrido e superficial, e isso pode acabar amargando o
gostinho de “vem aí” que muitos dos vários ganchos da trama deixam no
ar.
The
Witcher: A Origem é sólida o bastante
para merecer ser conferida, especialmente pelos personagens minimamente
interessantes e boas cenas de luta. O problema é que a produção não se sai bem
em nenhum dos objetivos que tenta conciliar, chegando ao fim de forma
acelerada, e deixando o espectador médio com mais dúvidas do que respostas. Se
você leu os livros, será um deleite ver em tela muita coisa que Sapkowski
apenas citou – mas, então, qual é o ponto de prometer uma expansão que só prega
para quem já é fiel?
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