terça-feira, 4 de setembro de 2018

Tomb Raider: A Origem (2018): uma aventura interessante, mas pouco memorável

Entre erros e acertos, o filme se destaca pela tentativa dedicada de se aproximar da franquia, mas perde-se com uma direção confusa e mal executada.

Cinema e videogames têm uma relação pouco positiva. Os jogos eletrônicos dispõem de mais tempo para o desenvolvimento da história, além da interação com o jogador. Para resolver esse problema, um filme que se propõe a adaptar a trama de um game, precisa saber aproveitar o conceito, o enredo, as personagens, tudo o que já foi estabelecido e transpor para um novo formato. “Tomb Raider” é eficiente na adaptação, mesmo sofrendo com alguns problemas técnicos.

A trama apoia-se no reboot da franquia nos videogames para contar a origem de Lara Croft (Alicia Vikander de “Submersão”). A jovem precisa decidir se irá aceitar a morte do pai, Richard Croft (Dominic West de “The Square: A Arte da Discórdia”), quando descobre indícios de uma pesquisa na qual ele havia trabalhado. Na esperança de encontrá-lo ainda vivo, Lara decide partir numa aventura que a fará lidar com uma antiga maldição.

Desde a primeira sequência, quando somos apresentados ao conflito principal, o longa deixa claro que é preciso lidar com a suspensão de descrença para poder se envolver com o que está acontecendo na tela. Da mesma forma, há uma preparação simples, mas funcional, para a aventura que será o foco deste filme. Lara não tem medo de enfrentar desafios, pouco importando as consequências – logo na primeira cena em que aparece, leva um soco durante uma luta de boxe -, e seu desenvolvimento será completado com flashbacks, numa estrutura narrativa simples e, por vezes, preguiçosa, mas que justifica algumas tomadas de decisões da protagonista (como a habilidade com o arco, por exemplo).


Essa relação com a descrença é importante para que o filme possa se aproveitar de elementos comuns em jogos, mas que podem parecer forçados para uma narrativa fílmica. Assim, quando Lara, mesmo ferida e cansada, consegue escalar um penhasco durante uma tempestade noturna, isso não deve soar estranho, afinal, é uma habilidade esperada para a personagem no contexto já estabelecido. O filme lida bem com esses detalhes, justamente por saber tratá-los de forma natural. Lara não parece ter super poderes, apenas utiliza habilidades desenvolvidas ao longo de sua trajetória.

Esses detalhes também permitem cenas que aproximam o filme ainda mais dos jogos. São visualmente interessantes para os que nunca tiveram contato com a franquia nos videogames, e aos fãs de longa data devem soar de forma mais íntima. E mesmo nos exageros, como na tentativa de clímax final, quando Lara precisa escapar da tumba, a protagonista tem ações tão inspiradas nos videogames, que fica evidente a preocupação do estúdio em beber diretamente da fonte.


Alicia Vikander também se esforça para se aproximar da personagem recriada nos jogos e sua caracterização é igualmente fiel. Longe de qualquer tipo de sexualização, ela é uma adaptação interessante ao não ser retratada com estereótipos forçados, nem precisando se provar o tempo todo. Seu objetivo é apenas descobrir o que aconteceu com seu pai. Mesmo tendo uma evolução fraca ao final do filme, sua apresentação e a forma como foi utilizada convencem. Algo que não acontece com o vilão, Mathias Vogel (Walton Goggins de “Maze Runner: A Cura Mortal”). A tentativa de humanizá-lo enfraquece seu desenvolvimento na narrativa e a ambiguidade sugerida é pouco crível.

Porém, o que realmente prejudica o filme é a direção confusa e mal executada de Roar Uthaug (“Fuga”). A cenas de luta são confusas, com uma câmera excessivamente tremida (seja para criar uma noção de desordem ou pela coreografia mal executada) que prejudica demais em determinados momentos. Sua forma de contar a história também é previsível, algo que se torna incômodo no terceiro ato, quando é possível adivinhar o que irá acontecer na cena seguinte à partir da forma como as personagens agem (e aqui também é possível notar uma certa preguiça no roteiro em trabalhar melhor os acontecimentos).


Entre adaptações inconstantes, que pouco fazem para honrar a mídia original, “Tomb Raider: A Origem” é uma aventura divertida, com algumas cenas empolgantes que podem ser mais prazerosas aos que conhecem os jogos da franquia, mas que também podem funcionar com o público não iniciado, que apenas espera um filme sem grandes pretensões. Certamente não é a adaptação definitiva de um videogame, ao mesmo tempo que não é (mais uma) tentativa frustrada.

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