Entre erros e acertos, o filme
se destaca pela tentativa dedicada de se aproximar da franquia, mas perde-se
com uma direção confusa e mal executada.
Cinema
e videogames têm uma relação pouco positiva. Os jogos eletrônicos dispõem de
mais tempo para o desenvolvimento da história, além da interação com o jogador.
Para resolver esse problema, um filme que se propõe a adaptar a trama de um
game, precisa saber aproveitar o conceito, o enredo, as personagens, tudo o que
já foi estabelecido e transpor para um novo formato. “Tomb Raider” é eficiente na adaptação, mesmo sofrendo com alguns
problemas técnicos.
A
trama apoia-se no reboot da franquia nos videogames para contar a origem de
Lara Croft (Alicia Vikander de “Submersão”). A jovem precisa decidir se
irá aceitar a morte do pai, Richard Croft (Dominic
West de “The Square: A Arte da
Discórdia”), quando descobre indícios de uma pesquisa na qual ele havia
trabalhado. Na esperança de encontrá-lo ainda vivo, Lara decide partir numa
aventura que a fará lidar com uma antiga maldição.
Desde
a primeira sequência, quando somos apresentados ao conflito principal, o longa
deixa claro que é preciso lidar com a suspensão de descrença para poder se
envolver com o que está acontecendo na tela. Da mesma forma, há uma preparação
simples, mas funcional, para a aventura que será o foco deste filme. Lara não
tem medo de enfrentar desafios, pouco importando as consequências – logo na
primeira cena em que aparece, leva um soco durante uma luta de boxe -, e seu
desenvolvimento será completado com flashbacks, numa estrutura narrativa
simples e, por vezes, preguiçosa, mas que justifica algumas tomadas de decisões
da protagonista (como a habilidade com o arco, por exemplo).
Essa
relação com a descrença é importante para que o filme possa se aproveitar de
elementos comuns em jogos, mas que podem parecer forçados para uma narrativa
fílmica. Assim, quando Lara, mesmo ferida e cansada, consegue escalar um
penhasco durante uma tempestade noturna, isso não deve soar estranho, afinal, é
uma habilidade esperada para a personagem no contexto já estabelecido. O filme
lida bem com esses detalhes, justamente por saber tratá-los de forma natural. Lara
não parece ter super poderes, apenas utiliza habilidades desenvolvidas ao longo
de sua trajetória.
Esses
detalhes também permitem cenas que aproximam o filme ainda mais dos jogos. São
visualmente interessantes para os que nunca tiveram contato com a franquia nos
videogames, e aos fãs de longa data devem soar de forma mais íntima. E mesmo
nos exageros, como na tentativa de clímax final, quando Lara precisa escapar da
tumba, a protagonista tem ações tão inspiradas nos videogames, que fica
evidente a preocupação do estúdio em beber diretamente da fonte.
Alicia Vikander também se esforça para se aproximar da personagem
recriada nos jogos e sua caracterização é igualmente fiel. Longe de qualquer
tipo de sexualização, ela é uma adaptação interessante ao não ser retratada com
estereótipos forçados, nem precisando se provar o tempo todo. Seu objetivo é
apenas descobrir o que aconteceu com seu pai. Mesmo tendo uma evolução fraca ao
final do filme, sua apresentação e a forma como foi utilizada convencem. Algo
que não acontece com o vilão, Mathias Vogel (Walton Goggins de “Maze
Runner: A Cura Mortal”). A tentativa de humanizá-lo enfraquece seu
desenvolvimento na narrativa e a ambiguidade sugerida é pouco crível.
Porém,
o que realmente prejudica o filme é a direção confusa e mal executada de Roar Uthaug (“Fuga”). A cenas de luta são confusas, com uma câmera excessivamente
tremida (seja para criar uma noção de desordem ou pela coreografia mal
executada) que prejudica demais em determinados momentos. Sua forma de contar a
história também é previsível, algo que se torna incômodo no terceiro ato,
quando é possível adivinhar o que irá acontecer na cena seguinte à partir da
forma como as personagens agem (e aqui também é possível notar uma certa
preguiça no roteiro em trabalhar melhor os acontecimentos).
Entre
adaptações inconstantes, que pouco fazem para honrar a mídia original, “Tomb Raider: A Origem” é uma aventura
divertida, com algumas cenas empolgantes que podem ser mais prazerosas aos que
conhecem os jogos da franquia, mas que também podem funcionar com o público não
iniciado, que apenas espera um filme sem grandes pretensões. Certamente não é a
adaptação definitiva de um videogame, ao mesmo tempo que não é (mais uma)
tentativa frustrada.
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