O que leva o ser humano a matar? É instintivo? O gene da carnificina é inerente ao homo sapiens? Está inscrito no nosso DNA? Nascemos puros e naturais e a sociedade moderna nos corrompeu como já profetizava o filósofo suíço Jean-Jacques Rousseau? A violência incrustada na mente de alguns psicopatas é adquirida culturalmente? Tais indagações levam à tona a questão da violência tão “bem” retratada pela mídia e nos filmes do gênero “ultraviolênce”.
Um exemplo real disso é o filme “Violência Gratuita” – (Funny Games), de 1997 do diretor Michael Haneke, que foi refeito agora em 2007 com uma safra de atores hollywoodianos. Entre eles estão o talentoso Michael Pitt (Os sonhadores, Cálculo Mortal), a bela Naomi Watts (21 Gramas, O chamado), Tim Roth (Pulp Fiction), Brady Corbet (Mistérios da Carne).
O longa-metragem narra a história de uma família que durante o veraneio recebe uma visita inusitada de dois jovens de mentes distorcidas, porém simpáticos: Peter e Paul. Um deles entra na casa da família avisando que é amigo dos vizinhos e pede ovos emprestados. Desde então o outro jovem adentra no domicílio e inicia uma série de jogos violentos e mortais com os presentes do recinto: o pai, a mãe e o filho. A “diversão” é instaurada no lar.
A dupla de psicopatas se auto-rotulam de Tom & Jerry, em alguns momentos de Beavis and Butt Head, banhados em uma ironia e um humor negro que lhes é peculiar. Durante o filme Paul e Peter começam a jogar com suas vítimas fazendo brincadeiras e colocando o próprio público como testemunha daquele espetáculo audiovisual. Em alguns momentos, até interagem com o espectador, colocando o receptor com um papel ativo, de certa maneira, nesse show doentio.
Durante o longa-metragem, um dos garotos volta o próprio filme e faz com que seu parceiro que havia sido baleado evite morrer. Algo de certa forma inovador na sétima arte. Um recurso estilístico eu diria, por que não dizer uma interação plena com o público, um jogo.
É inevitável durante o filme referências ao genial “Laranja Mecânica”, de 1971, porém “Violência Gratuita” se torna alvo de tantas controvérsias, e para mim indispensável, pois carrega em si temas polêmicos e algumas reflexões sobre o papel da violência na nossa sociedade. A função social de tudo isso, suas implicações e conseqüências. O que leva o ser humano a fazer esse tipo de ação? É culpa da sociedade? É o meio? É a indústria da consciência que cada vez mais traz para nós noticiários sanguinolentos, filmes banhados de carnificina, séries, novelas, sitcoms coloridos de um vermelho mortal?
A violência como espetáculo. O sangue se tornou mercadoria na mídia e de alto valor. O consumo simbólico que é efetuado por meio das imagens mostradas pelo quarto poder permite que as pessoas canalizem suas patologias, seus impulsos reprimidos. Peter e Paul precisam de audiência, eles descarregam suas pulsões mais negras nas pessoas usando a violência como meio. Eles não precisam da televisão para aliviar seus instintos doentios, eles precisam de nós como vítimas e testemunhas desse show chamado mídia.
Thiago Neves - Jornalista e profissional da Rádio e TV pela UFRN